Os destaques nas redes sociais: impacto da discussão entre Ratinho e Erika Hilton revelado em pesquisa

Um relatório do Instituto Democracia em Xeque aponta o impacto da discussão nas redes sociais em torno do apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, e da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e quem mais se destacou. Um debate foi iniciado na semana passada quando Ratinho criticou, com comentários transfóbicos, a eleição da parlamentar para presidir a Comissão da Mulher da Câmara.

Segundo o levantamento — feito por meio da ferramenta DataLake, com dados coletados das plataformas Facebook, Instagram, YouTube, X e TikTok — houve 956 mil postagens sobre o assunto nos últimos sete dias, que alcançaram 15,6 milhões de interações de usuários nas redes sociais. Os principais picos de publicação foram registrados entre os dias 11 e 13 de março.

As tags #ProgramaDoRatinho e #SBT foram mencionadas em, respectivamente, 1.259 e 682 publicações, enquanto #ErikaHilton e #ErikaMeRepresenta foram usadas em, respectivamente, 657 e 550 publicações.

Quando os perfis que publicaram sobre o assunto são divididos em categorias ideológicas, têm-se um forte predomínio de perfis alinhados à direita no debate, com cerca de 1,9 mil publicações. A esquerda aparece em segundo lugar, com 962 posts, enquanto imprensa (422) e centro (393) ocupam posições intermediárias. Tal padrão aponta que a polêmica foi apropriada de forma mais intensa por perfis da direita, que ampliaram o tema e contribuíram para sua escalada no ambiente digital.

O mesmo cenário é reforçado quando o instituto olha para as mais de 15 milhões de interações, tem-se o predomínio da direita no debate, que concentra cerca de 7 milhões de interações, superando com folga os demais campos. A esquerda aparece em segundo lugar, com 4,2 milhões, mantendo presença relevante, mas ainda distante.

“No que diz respeito aos segmentos político-ideológicos, a esquerda apresentou apoio amplo à deputada através da campanha #ErikaMeRepresenta, de críticas ao apresentador Ratinho com foco em seu histórico de episódios polêmicos e da retomada do debate sobre violência de gênero e feminicídio. Além disso, as publicações buscaram se contrapor à extrema-direita, retratada como falsa defensora dos direitos das mulheres. Já a extrema-direita se apropriou da agenda para disseminar narrativas conservadoras e impulsionar uma agenda anti-woke. Curiosamente, grande parte das publicações reconhece a luta de mulheres trans como legítima, contudo sempre em torno de um eixo de diferenciação entre “mulheres biológicas” e mulheres trans para questionar a legitimidade da representatividade de Erika Hilton na Comissão”, explica Andressa Costa, pesquisadora do Instituto Democracia em Xeque e do Centro de Administração e Políticas Públicas (CAPP) da Universidade de Lisboa.

Um grupo que chama atenção é a categoria “fofoca”, com 1,7 milhão de interações, indicando que parte da repercussão ocorre por meio de perfis de entretenimento e celebridades, que ajudam a ampliar o alcance do tema para além do debate político.

Os três perfis com mais engajamento que se envolveram na discussão foram:

  • Deputada Erika Hilton
  • Perfil de fofoca “Alfinetei”
  • Vereador bolsonarista de São Paulo Lucas Pavanato (PL)

“Perfis como o de Lucas Pavanato, um dos mais engajados no período com 954 mil interações, lideraram uma ofensiva que tenta enquadrar a presença de mulheres trans em espaços de poder como uma ameaça aos direitos das ‘mulheres biológicas’, criando um conflito artificial entre biologia e ideologia para mobilizar sua base. Foi identificado também um movimento de parlamentares de direita em torno da pauta “Erika não me representa”, colocando em debate questões que determinariam essa diferenciação de mulheres, como a maternidade. Além disso, a principal narrativa para reforçar que Erika não representaria as mulheres foi a exploração do seu voto contrário à PEC da Segurança Pública como um voto contra o aumento das penas para estupro e feminicídio”, complementa Andressa Costa.

A base de observação do Instituto Democracia em Xeque é composta por uma lista de atores ligados ao debate político, entre eles políticos, influenciadores, mídia de referência e mídia partidária. A coleta de conteúdos é realizada a partir de 2.142 perfis no Facebook; 2.448 no Instagram; 725 canais do YouTube; 1.259 perfis no X e 402 no TikTok.

Entenda o caso

No dia em que a deputada Erika Hilton foi eleita para presidir a Comissão da Mulher da Câmara, o apresentador Ratinho criticou a situação. No entanto, para isso, ele negou que ela seja uma mulher por ser uma pessoa trans. “Ela é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata [por] três, quatro dias. Eu sou contra [a eleição dela para presidir esta comissão]. Eu acho que deveria deixar uma mulher [ocupar este espaço]”, disse o apresentador na ocasião.

Ratinho ainda disse que não tem “nada contra [pessoas] trans”, mas seguiu com seu posicionamento para invalidar a identidade de gênero da parlamentar e de outras mulheres trans. “Mulher, para ser mulher, tem de ser mulher. Eu até respeito todo mundo, comissão de defesa dos direitos da mulher, defendo quem tem comportamento diferente”, comentou.

Em outro momento, Ratinho misturou até as palavras femininas e masculinas para se referir à deputada Erika Hilton: “Quero dizer que não tenho nada contra a deputada, ou deputado, não sei. Não tenho nada contra, não me fez nada. Ela fala bem, é boa de prosa. Agora, acho que devia ser mulher [para ocupar a presidência da comissão]”, finalizou ele.

Em nota à imprensa, o SBT disse que “repudia qualquer tipo de discriminação e preconceito” e que práticas como essa contrariam os valores da emissora. “As declarações do apresentador Ratinho, expressadas ao vivo ontem em seu programa, não representam a opinião da emissora e estão sendo analisadas pela direção da empresa, que tratará do tema internamente a fim de que nossos valores sejam respeitados por todos os colaboradores”, diz o texto.

Em resposta ao ocorrido, a deputada Erika Hilton acionou o Ministério Público contra Ratinho e o SBT. E a instituição logo se posicionou, defendendo a condenação judicial dos dois, com o pagamento de uma multa de 10 milhões de reais por indenização e danos morais coletivos (entenda aqui o posicionamento do MPF).

Desde 2019, transfobia é crime no Brasil, já que o STF (Supremo Tribunal Federal) equiparou a transfobia e a homofobia ao crime de racismo. A decisão faz com que condutas discriminatórias, ofensas, agressões físicas ou a negação de direitos baseados na identidade de gênero ou sexualidade sejam considerados crimes que devem ser punidos com penas que variam de multa a até três anos de reclusão.

Bem Ironico

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