A polêmica interna no PSOL: Erika Hilton e sua crítica à divisão do fundo eleitoral

A recente controvérsia sobre a alocação de recursos eleitorais para as campanhas deste ano gerou uma crise no PSOL, revelando desavenças internas significativas a poucos dias das eleições.

O ponto de partida foi uma declaração da deputada federal Erika Hilton (SP), uma das mais influentes candidatas do partido. Em um post feito na terça-feira, 23, ela acusou a cúpula nacional de não cumprir acordos previamente estabelecidos e de adotar critérios que, segundo sua avaliação, ameaçam candidaturas essenciais para a continuidade da sigla. “Estão desrespeitando nossos acordos e praticamente nos inviabilizando”, escreveu a parlamentar em sua publicação no X (anteriormente Twitter), que ganhou ampla repercussão entre os membros e simpatizantes do partido.

Dirigentes e lideranças consultados pela reportagem concordam que a polêmica vai além da simples discussão sobre valores individuais. O que está em risco é a estratégia do PSOL para garantir o cumprimento da cláusula de barreira em 2026, um mecanismo que limita o acesso ao fundo partidário e à propaganda eleitoral para partidos que não atingem certos resultados nas urnas. Um membro da direção do PSOL, que preferiu não ser identificado, expressou preocupações sobre o futuro da legenda, afirmando que enfraquecer candidaturas com forte potencial de mobilização pode resultar em dificuldades reais para superar essa cláusula.

Conforme esse dirigente, algumas regiões consideradas cruciais estariam recebendo estimativas de recursos aquém das expectativas locais, enquanto parte dos militantes questiona as prioridades estabelecidas pela liderança nacional. “Estão sugerindo destinar apenas 100 mil reais ao Acre, onde temos 37 candidaturas”, defendeu o integrante do partido. “Uma vereadora do Recife, pré-candidata a deputada estadual, mulher, negra e ambulante — única parlamentar do PSOL em Pernambuco — receberá 200 mil reais, enquanto candidatos no Sudeste têm orçamentos superiores a 1 milhão de reais”, destacou.

Em seu pronunciamento, Erika expressou preocupação com o abandono de uma política interna que priorizava critérios como gênero, raça e inclusão na distribuição dos fundos. Ela também criticou os valores destinados às candidaturas ligadas à atual direção do partido.

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A deputada mencionou especificamente o ex-presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, que é pré-candidato a deputado federal, e Manuela d’Ávila, recém-filiada ao partido e pré-candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul. Manuela foi questionada sobre as críticas e afirmou que “o PSOL já se manifestou suficientemente” sobre o tema.

O vereador carioca Rick Azevedo, um dos principais defensores da campanha pelo fim da jornada de trabalho 6×1 e também pré-candidato à Câmara dos Deputados, alertou que o partido pode estar prestes a repetir erros cometidos nas eleições municipais de 2024. Segundo ele, candidaturas com comprovada capacidade de atrair apoio popular estariam sendo menosprezadas pela liderança nacional.

Juliano Medeiros respondeu publicamente às alegações feitas por Erika. Em uma postagem nas redes sociais, afirmou que ela receberá o maior montante destinado às candidaturas proporcionais do PSOL em todo o Brasil, cerca de 2,3 milhões de reais. Ele negou qualquer alteração nos critérios históricos relacionados ao incentivo à participação de mulheres, negros, indígenas e pessoas com deficiência.

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Além disso, Juliano defendeu que a estratégia partidária procura equilibrar a manutenção da bancada atual com a renovação dos quadros políticos, citando nomes como Manuela d’Ávila e Natalia Boulos (esposa do ministro Guilherme Boulos), além de outras lideranças vistas como prioritárias dentro da legenda.

A defesa da direção

A direção nacional do PSOL se manifestou em resposta à reportagem afirmando que a proposta ainda será avaliada pelas instâncias internas do partido e refutou qualquer alegação de ter abandonado políticas inclusivas na distribuição dos recursos. Em um comunicado oficial, declarou que Erika será a candidatura proporcional mais bem financiada nacionalmente pelo PSOL e reafirmou que o objetivo central da estratégia eleitoral é expandir as bancadas legislativas e apoiar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Divisões internas

No entanto, por trás das disputas financeiras está uma discussão mais profunda sobre o futuro do PSOL. Desde março deste ano, quando o grupo liderado por Guilherme Boulos optou por permanecer na legenda, líderes desse segmento têm defendido a preservação de nomes capazes de ampliar os votos nacionais do partido.

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A preocupação expressa por integrantes da sigla é evitar que divergências internas comprometam os quadros políticos essenciais para enfrentar com sucesso os desafios da cláusula de barreira em 2026.

No último pleito para a Câmara dos Deputados, Guilherme Boulos foi o deputado mais votado do país com impressionantes 1.001.472 votos em São Paulo. Erika Hilton obteve 256.903 votos e foi a nona mais votada no estado (e segunda dentro do partido). Com Boulos fora da disputa neste ano (optando por permanecer no ministério), Erika se destaca como a principal puxadora de votos do PSOL em São Paulo.

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